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terça-feira, 4 de setembro de 2007

Palhaço clássico

Ontem, estava eu exercendo minha profissão e tentando extrair informações de um entrevistado, digamos, hermético. Tô lá, me fazendo de simpática, emplacando uma sociabilidade, fazendo amizade pra ver se o bruto desembuchava. Tamos lá, intercalando perguntas objetivas e amenidades quando toca o celular dele. Depois de um blábláblá com algum cálega circense, ele manda "e o casório, sai ou não sai?". Parece que o palhaço do outro lado da linha fez o número do palhaço oprimido pela dona de circo dominadora. "Ah, fica noivo que você ganha um tempo, eu fiz isso".

Depois de desligar ele comentou comigo "ah, esse meu amigo namora há 10 anos, antes dizia que não casava porque não tinha dinheiro, mas agora virou diretor da empresa, não tem mais desculpa, a namorada encostou ele na parede. Falei pra ficar noivo e enrolar mais um pouco". Pois é, dileta audiência, sou meio burrinha, por isso não entendo. Se uma criatura não quer casar porque finge que quer? Se tem um relacionamento de 10 anos, porque não casa? Para que "ganhar tempo"? Hmmmm.....será que é porque é palhaço?

Não contente como número de abertura, meu entrevistado caladão para assuntos profissionais, porém falante para assuntos circenses, me olha com certo sarcasmo e dispara "Você é casada?".

– Já fui.
– Quanto tempo?
– Ah, quase 10 anos...
– E separou? Por quê?!


Quem visse a cara que ele fez sem ouvir a conversar acharia que eu tinha confessado que trepava com cadáveres.

– Ah, separei porque separei, venceu o prazo de validade, entojei.
– Mas você teve filhos?
– Não, felizmente.
– Ahhhhhh.... então foi por isso que separou! Tinha que ter tido filhos. Se tivesse tido filho não tinha separado! Filho é a melhor coisa, você não separar! Eu tenho um bebê....


Pois é amigos, pois é. No universo circense dele eu estaria melhor hoje se estivesse casada com o traste do meu ex-marido e com uns dois ou três moleques remelentos grudados na barra da minha saia. Não importa que eu não tenha pendor para a maternidade, não importa que meu marido fosse um traste, não importa que eu não gostasse mais dele (e provavelmente ele de mim) e que nós quase nos odiássemos. Importa que a instituição do matrimônio teria sido preservada e a perpetuação da espécie (circense) teria sido garantida!

Como sempre digo... o mundo é estranho.

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